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Roma V e Eixo Intestino-Cérebro: o que mudou | IntegrativaLab

  • Foto do escritor: André Virtos
    André Virtos
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Microbiota, sistema nervoso, imunidade e barreira intestinal passam a fazer parte de uma visão cada vez mais integrada dos sintomas gastrointestinais

Durante muitos anos, pacientes com dor abdominal, distensão, alterações do hábito intestinal e outros sintomas digestivos persistentes foram frequentemente classificados como portadores de “distúrbios funcionais gastrointestinais”. Essa terminologia, embora importante em sua época, nem sempre refletia toda a complexidade biológica envolvida nesses quadros.

Com o Roma V, consolida-se uma visão mais ampla: a dos Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro — DGBIs, do inglês Disorders of Gut-Brain Interaction.

Mais do que uma mudança de nomenclatura, essa evolução representa uma transformação na forma de compreender o trato gastrointestinal. O intestino deixa de ser analisado apenas como um órgão digestivo e passa a ser considerado parte de um complexo sistema de comunicação envolvendo microbiota intestinal, sistema nervoso entérico, sistema nervoso central, imunidade de mucosa, permeabilidade intestinal, motilidade, sensibilidade visceral e fatores psicossociais.

O eixo intestino-cérebro ganha ainda mais importância

Um dos pontos centrais dessa abordagem é o fortalecimento do conceito de eixo intestino-cérebro.

A comunicação entre intestino e cérebro é bidirecional. Alterações intestinais podem influenciar o sistema nervoso e, ao mesmo tempo, estresse, emoções e respostas do sistema nervoso autônomo podem modificar a fisiologia gastrointestinal.

Nesse contexto, tornam-se relevantes mecanismos como:

  • alterações da microbiota intestinal;

  • disfunções da barreira intestinal;

  • neuroinflamação;

  • hipersensibilidade visceral;

  • alterações autonômicas;

  • ativação imunológica de baixo grau;

  • influência do estresse crônico.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que sintomas gastrointestinais podem persistir mesmo na ausência de uma alteração estrutural evidente.

Microbiota: de coadjuvante a componente central

A microbiota intestinal ocupa posição cada vez mais importante no estudo dos DGBIs.

Alterações em sua composição e atividade podem estar relacionadas a fenômenos como disbiose, distensão abdominal, alterações de motilidade e hipersensibilidade visceral. O material do Roma V também destaca a integração do eixo microbiota-intestino-cérebro ao raciocínio clínico.

A microbiota participa ainda do metabolismo de moléculas relacionadas à comunicação neuroquímica, incluindo vias associadas a serotonina, GABA, dopamina e metabolismo do triptofano.

Por isso, estudar apenas um órgão ou um único marcador pode não ser suficiente diante de um sistema biologicamente interconectado.

Hipersensibilidade visceral: um conceito fundamental

Outro conceito central é o da hipersensibilidade visceral.

Nesse fenômeno, estímulos que normalmente poderiam ser percebidos apenas como sensações intestinais passam a ser interpretados como desconforto ou dor.

Entre os mecanismos que podem participar desse processo estão:

  • neuroinflamação;

  • ativação de mastócitos;

  • alterações serotoninérgicas;

  • disbiose;

  • aumento da permeabilidade intestinal;

  • sensibilização central;

  • estresse crônico.

Isso ajuda a explicar por que dois indivíduos podem apresentar estímulos intestinais semelhantes e, ainda assim, experimentar níveis muito diferentes de dor, distensão ou desconforto.

A abordagem biopsicossocial não significa que o sintoma seja “psicológico”

Um aspecto importante dessa evolução é compreender corretamente o papel dos fatores emocionais.

Ansiedade, estresse e outros fatores psicossociais não significam que os sintomas sejam imaginários. Eles podem atuar sobre vias fisiológicas reais, modificando funções neuroimunes, autonômicas e gastrointestinais.

O estresse crônico, por exemplo, pode influenciar:

cortisol → motilidade intestinal → permeabilidade → mastócitos → atividade vagal → microbiota → percepção visceral.

Portanto, fatores emocionais e biológicos não devem ser avaliados como elementos concorrentes, mas como componentes de uma mesma rede fisiológica.

Síndrome do Intestino Irritável e outros DGBIs

Entre os distúrbios intestinais, a Síndrome do Intestino Irritável (SII) permanece como uma das condições mais relevantes.

Ela pode apresentar diferentes padrões clínicos, incluindo:

  • SII com constipação;

  • SII com diarreia;

  • SII com padrão misto;

  • SII não classificada.

Além da alteração do hábito intestinal, a presença de dor abdominal recorrente associada à evacuação ou à mudança do padrão intestinal continua sendo um elemento central.

O Roma V também diferencia condições como constipação funcional, distensão abdominal funcional e outros distúrbios gastrointestinais, reforçando a importância de uma avaliação clínica individualizada.

E onde entram os exames laboratoriais?

Embora os critérios de Roma permaneçam essencialmente clínicos, a avaliação de biomarcadores pode fornecer informações complementares importantes sobre os mecanismos envolvidos em cada paciente.

Entre os eixos laboratoriais que podem ser considerados estão:

Inflamação intestinal

Calprotectina fecal e lactoferrina fecal podem contribuir para a investigação de atividade inflamatória intestinal e auxiliar na diferenciação de determinados quadros clínicos.

Barreira e permeabilidade intestinal

Marcadores relacionados à integridade da barreira intestinal podem ajudar a ampliar a compreensão do ambiente gastrointestinal.

Imunidade de mucosa

A IgA secretora fecal fornece informações relacionadas à resposta imunológica presente na superfície da mucosa intestinal.

Eixo triptofano–quinurenina

O metabolismo do triptofano e da quinurenina representa uma das interfaces entre metabolismo, imunidade e comunicação intestino-cérebro, sendo particularmente interessante dentro de uma abordagem integrativa.

O próprio material-base ressalta que os biomarcadores começam a ganhar importância complementar, embora o diagnóstico dos DGBIs continue sendo predominantemente clínico.

Do sintoma ao mecanismo

Talvez uma das principais contribuições dessa nova visão seja substituir a pergunta:

“Onde está a lesão?”

por uma investigação mais ampla:

“Quais mecanismos podem estar contribuindo para esse sintoma?”

Em um mesmo paciente podem coexistir alterações de microbiota, permeabilidade intestinal, resposta imunológica, metabolismo, sensibilidade visceral, sistema nervoso autônomo e fatores relacionados ao estresse.

Esse raciocínio aproxima a gastroenterologia de uma medicina mais integrativa, neuroimune, microbiológica, funcional e personalizada. O material do Roma V aponta justamente para uma integração crescente entre microbiota, neurociência, imunologia, metabolômica e biomarcadores.

Uma nova forma de compreender o intestino

O intestino já não pode ser compreendido somente pela digestão.

Ele é também uma interface imunológica, metabólica e neuroendócrina, permanentemente conectada ao cérebro e ao restante do organismo.

Na IntegrativaLab, essa perspectiva orienta a utilização de biomarcadores laboratoriais como ferramentas complementares para ampliar a compreensão dos diferentes eixos fisiológicos do paciente, sempre integrados à avaliação clínica.

IntegrativaLab — informação laboratorial para uma visão integrada do paciente.

 
 
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