Medicina Tradicional Chinesa, Neuroinflamação, Quinurenina e Alzheimer
- André Virtos
- há 20 horas
- 6 min de leitura

A Medicina Tradicional Chinesa sempre observou o organismo de forma integrada. Memória, cognição, emoções, sono, digestão, vitalidade e envelhecimento não são analisados como fenômenos completamente separados, mas como manifestações de um sistema funcional interdependente.
Hoje, a neurociência também demonstra que o funcionamento cerebral não depende apenas dos neurônios. Sistema imunológico, metabolismo, inflamação, microbiota, disponibilidade de nutrientes e diferentes vias bioquímicas participam dessa complexa rede.
É justamente nesse ponto que tradição e ciência podem começar a dialogar.
Uma revisão científica publicada em 2024 na revista Chinese Medicine analisou produtos naturais relacionados à Medicina Tradicional Chinesa e à acupuntura em relação aos mecanismos de neuroinflamação envolvidos na doença de Alzheimer.
Nesse contexto, uma via metabólica merece atenção especial: a via do Triptofano-Quinurenina.
Como a Medicina Tradicional Chinesa observa a função cerebral?
Na MTC, não existe um único órgão responsável isoladamente pela memória, pela cognição ou pelo equilíbrio emocional. O funcionamento mental é compreendido a partir da interação entre diferentes sistemas funcionais.
O Coração (Xin) possui relação tradicional com o Shen, conceito que abrange aspectos da consciência, atividade mental, percepção e vida emocional.
O Rim (Shen) está relacionado ao Jing, a Essência, e tradicionalmente participa da compreensão dos processos de crescimento, desenvolvimento, envelhecimento e sustentação das funções profundas do organismo.
O Baço (Pi) participa da transformação e transporte das substâncias nutritivas e, dentro do raciocínio tradicional, também possui relação com o Yi, associado ao pensamento, concentração e capacidade de reflexão.
O Fígado (Gan) participa do fluxo adequado do Qi e do Xue, enquanto alterações desse movimento podem fazer parte da construção de determinados padrões tradicionais.
Portanto, diante de alterações cognitivas, a Medicina Tradicional Chinesa procura compreender o padrão global do indivíduo, e não apenas identificar uma estrutura cerebral isolada.
Jing, Shen e envelhecimento
O envelhecimento ocupa uma posição particularmente importante na Medicina Tradicional Chinesa. Tradicionalmente, a redução progressiva do Jing do Rim faz parte da compreensão das mudanças relacionadas à idade.
Quando alterações de memória, concentração, vitalidade e outras funções aparecem no envelhecimento, o raciocínio da MTC pode envolver diferentes padrões:
deficiência do Jing;
alterações de Qi e Xue;
presença de Fleuma;
estagnação;
deficiência funcional de determinados sistemas Zang Fu.
Isso não significa que um desses padrões seja equivalente à doença de Alzheimer. A MTC utiliza sua própria linguagem diagnóstica. Mas a ciência contemporânea pode acrescentar outra dimensão à avaliação: o que está acontecendo metabolicamente nesse indivíduo?
A proposta não é transformar Jing, Shen ou Zang Fu em biomarcadores. É acrescentar informação laboratorial sem descaracterizar a lógica da MTC.
Da visão tradicional à neuroinflamação
Na biomedicina contemporânea, a doença de Alzheimer é compreendida como uma condição extremamente complexa.
Além da beta-amiloide e da proteína tau, existe crescente interesse científico por mecanismos envolvendo neuroinflamação, ativação da micróglia, estresse oxidativo, metabolismo energético, disfunção mitocondrial, neurotransmissão e alterações metabólicas.
A revisão publicada em Chinese Medicine em 2024 investigou justamente como substâncias naturais tradicionalmente relacionadas à MTC e a acupuntura poderiam interferir em algumas dessas vias.
Esse tipo de pesquisa cria uma ponte interessante: a MTC continua utilizando seus próprios critérios para reconhecer padrões, enquanto a medicina laboratorial permite investigar determinadas vias metabólicas objetivamente mensuráveis.
Onde entra a Quinurenina?
O triptofano é um aminoácido essencial geralmente lembrado por participar da produção de serotonina. Entretanto, a maior parte do metabolismo do triptofano ocorre pela chamada via da quinurenina.
Essa via participa de uma importante interface entre metabolismo, sistema imunológico, inflamação e sistema nervoso.
Quando determinadas vias imunológicas são ativadas, o metabolismo do triptofano pode ser direcionado de forma diferente para a produção de quinurenina e seus metabólitos.
Por isso, a via da quinurenina vem sendo estudada em diferentes condições relacionadas à neuroinflamação, neurodegeneração e neuropsiquiatria.
Triptofano → Quinurenina → Metabólitos neuroativos
Quinurenina: mais do que um marcador isolado
A quinurenina não deve ser interpretada simplesmente como alta ou baixa sem contexto. Depois de formada, ela pode seguir diferentes caminhos metabólicos.
Uma rota pode contribuir para a formação de 3-hidroxiquinurenina e ácido quinolínico. Outra pode levar à formação de ácido quinurênico.
O ácido quinolínico possui atividade relacionada aos receptores NMDA e é estudado em conexão com excitotoxicidade e estresse oxidativo. O ácido quinurênico apresenta outros efeitos moduladores sobre a neurotransmissão.
Assim, estudar a quinurenina significa começar a observar como o organismo está utilizando o triptofano dentro de uma importante via metabólica.
O que isso tem a ver com a Medicina Tradicional Chinesa?
Aqui está um ponto fundamental: Quinurenina não é um marcador de Jing.
Uma alteração laboratorial também não pode ser traduzida diretamente como Fleuma, deficiência do Rim ou qualquer outro padrão da Medicina Tradicional Chinesa. Essas equivalências seriam cientificamente inadequadas.
Mas isso não impede uma utilização complementar.
Imagine um paciente que, pela avaliação da MTC, apresenta um determinado conjunto de sinais e sintomas envolvendo memória, sono, vitalidade, digestão, estado emocional e envelhecimento.
O raciocínio tradicional permite ao profissional identificar o padrão funcional. A avaliação laboratorial pode acrescentar outra pergunta: como estão algumas vias metabólicas relevantes nesse mesmo paciente?
É nesse ponto que a IntegrativaLab propõe a integração.
Duas linguagens, o mesmo paciente
A medicina integrativa não precisa escolher entre tradição e laboratório. Podemos observar o mesmo paciente sob diferentes perspectivas.
Pela Medicina Tradicional Chinesa | Pela medicina laboratorial |
Padrões Zang Fu | Vias metabólicas mensuráveis |
Qi e Xue | Metabolismo do triptofano |
Yin e Yang | Quinurenina |
Jing e Shen | Contexto imunometabólico |
Sinais e sintomas | Dados laboratoriais complementares |
Língua e pulso | Integração com outros marcadores |
Constituição e evolução clínica | Interpretação no contexto clínico |
As duas avaliações não se substituem. Elas acrescentam diferentes camadas de informação sobre o mesmo indivíduo.
Quinurenina e neuroinflamação
Um dos motivos pelos quais essa via recebe tanta atenção é sua relação com a resposta imunológica.
A ativação imune pode modificar o metabolismo do triptofano e influenciar a formação de quinurenina e seus metabólitos.
Essa relação ajuda a explicar por que a quinurenina aparece frequentemente nas pesquisas sobre a interface entre inflamação e sistema nervoso.
Entretanto, sua dosagem isolada não é um diagnóstico de neuroinflamação cerebral. Ela deve ser utilizada como informação metabólica dentro de uma avaliação mais ampla.
Ativação imunológica → Triptofano → Quinurenina → Neurobiologia
E no Alzheimer?
Alterações da via da quinurenina também vêm sendo investigadas na doença de Alzheimer.
Estudos apontam diferenças no metabolismo do triptofano e na relação entre triptofano e quinurenina em grupos de pacientes com Alzheimer.
Isso não transforma a Quinurenina em um exame para diagnosticar a doença. O interesse está em compreender uma das vias metabólicas que podem participar da complexa interação entre inflamação, imunidade, metabolismo e sistema nervoso.
Essa perspectiva combina particularmente bem com uma medicina que busca compreender o paciente de maneira sistêmica.
MTC, acupuntura e neuroinflamação
A revisão científica publicada em 2024 analisou também estudos envolvendo acupuntura.
Os pesquisadores discutem possíveis mecanismos relacionados à neuroinflamação, plasticidade sináptica, neurotransmissão, estresse oxidativo, beta-amiloide e proteína tau.
Também foram analisados diferentes compostos naturais estudados no contexto da Medicina Tradicional Chinesa, entre eles curcumina, resveratrol, quercetina, kaempferol, EGCG, ginsenosídeo Rg1, icariina, luteolina, naringenina e baicaleína.
Essas pesquisas não significam que a MTC seja um tratamento comprovado para Alzheimer. Grande parte dos mecanismos ainda está sendo estudada experimentalmente.
O que elas demonstram é algo particularmente relevante para a medicina integrativa: a ciência moderna está investigando biologicamente intervenções desenvolvidas dentro de sistemas médicos tradicionais.
MTC e informação laboratorial: integração sem equivalência
A proposta da IntegrativaLab não é transformar a Medicina Tradicional Chinesa em bioquímica.
É preservar sua lógica e, ao mesmo tempo, permitir ao profissional acessar informações laboratoriais que possam ampliar a avaliação do paciente.
Dentro dessa abordagem, o exame de Quinurenina pode acrescentar uma informação sobre a via metabólica do triptofano.
Exame de Quinurenina | IntegrativaLab
Amostra: sangue capilarColeta: pequena punção na ponta do dedo
Informação complementar sobre uma importante via do metabolismo do triptofano.
Da ponta do dedo para uma visão mais ampla do metabolismo
Uma pequena amostra de sangue capilar pode fornecer ao profissional uma informação adicional sobre uma via que conecta diferentes sistemas.
Triptofano → Quinurenina → Imunidade e metabolismo → Neurobiologia
O resultado não substitui o diagnóstico energético da MTC. Também não substitui avaliação médica, neurológica ou diagnóstico convencional.
Ele acrescenta uma nova camada objetiva de informação metabólica.
A medicina integrativa pode falar duas linguagens
Uma das grandes possibilidades da medicina integrativa contemporânea é continuar compreendendo o indivíduo por meio dos fundamentos construídos ao longo de séculos pela Medicina Tradicional Chinesa e, simultaneamente, utilizar ferramentas laboratoriais capazes de observar aspectos da sua fisiologia.
MTC identifica padrões.O laboratório investiga vias metabólicas.O paciente é um só.
A quinurenina representa um exemplo dessa aproximação. Não porque explique a MTC, mas porque permite adicionar uma nova informação à compreensão individualizada do organismo.
Conheça o exame de Quinurenina da IntegrativaLab
A IntegrativaLab disponibiliza a avaliação de Quinurenina em sangue capilar, com coleta simples por punção na ponta do dedo.
Uma forma prática de acrescentar à avaliação integrativa informações sobre uma importante via do metabolismo do triptofano.
Referência científica
CHEN, Z.; WANG, X.; DU, S.; et al. A review on traditional Chinese medicine natural products and acupuncture intervention for Alzheimer's disease based on the neuroinflammatory. Chinese Medicine, v. 19, n. 1, 35, 2024. DOI: 10.1186/s13020-024-00900-6. PMID: 38419106.
Aviso: Conteúdo científico e educacional. A dosagem de Quinurenina não constitui, isoladamente, diagnóstico de neuroinflamação, doença de Alzheimer ou de padrões da Medicina Tradicional Chinesa. Os resultados laboratoriais devem ser interpretados no contexto clínico e em conjunto com as demais avaliações pertinentes.