top of page

Santa Hildegarda, Estroboloma e Eixo HPA: do ambiente aos estrogênios e à via da quinurenina

  • Foto do escritor: André Virtos
    André Virtos
  • há 19 horas
  • 7 min de leitura

Há quase nove séculos, Santa Hildegarda de Bingen descrevia o ser humano como parte de uma rede dinâmica de relações. Corpo, ambiente, alimentação, emoções e características individuais não apareciam em sua medicina como elementos completamente separados.

Naturalmente, Hildegarda utilizava a linguagem e os conceitos disponíveis no século XII. Ela não conhecia hormônios, microbiota intestinal, receptores celulares, cortisol ou epigenética.

Em 2022, um artigo publicado na revista Frontiers in Neuroscience propôs uma reflexão atual sobre essa visão. Os autores analisaram aspectos da medicina de Hildegarda à luz do conhecimento contemporâneo e utilizaram os estrogênios e seus receptores como exemplo de interface biodinâmica — um elo molecular entre ambiente, fisiologia, cérebro e regulação biológica.

Ambiente → Intestino → Hormônios → Cérebro → Estresse → Imunidade → Metabolismo

Microcosmo e macrocosmo: uma ideia antiga para uma biologia moderna

Uma das concepções associadas à medicina de Santa Hildegarda é a relação entre microcosmo e macrocosmo. O indivíduo representa o microcosmo; o ambiente, o macrocosmo. Entre os dois existe uma comunicação permanente.

A biologia contemporânea descreve essa interação em outra linguagem: ambiente, sistema nervoso, sistema endócrino, imunidade, metabolismo e expressão gênica formam redes de comunicação que se influenciam continuamente.

O organismo não é um conjunto de compartimentos isolados. Ele interpreta o ambiente e modifica sua fisiologia em resposta.

Esse princípio está no centro do conceito de interface biodinâmica discutido no artigo de 2022. Os autores destacam os estrogênios e seus receptores como moléculas capazes de conectar ambiente, comportamento, cérebro, endocrinologia e regulação epigenética.

Hoje podemos acrescentar outra dimensão essencial a essa discussão: a microbiota intestinal e sua função no metabolismo hormonal.

Estrogênios e intestino: conhecendo o Estroboloma

Durante muitos anos, microbiota intestinal e metabolismo hormonal foram estudados quase como áreas independentes. Hoje sabemos que existe um conjunto de genes e atividades metabólicas da microbiota intestinal envolvido no metabolismo dos estrogênios. Esse sistema funcional recebe o nome de Estroboloma.

O Estroboloma participa da regulação da biodisponibilidade dos estrogênios por meio de enzimas bacterianas capazes de atuar sobre hormônios que chegam ao intestino após processamento hepático.

β-glucuronidase: atividade funcional do Estroboloma

A atividade da β-glucuronidase fecal mede funcionalmente a atividade do Estroboloma relacionada à desconjugação dos estrogênios.

Esse é um ponto fundamental: não estamos olhando apenas para quais bactérias estão presentes no intestino. Estamos observando o que a microbiota está fazendo.

A β-glucuronidase microbiana é um componente funcional central do Estroboloma. Sua atividade participa da desconjugação de metabólitos estrogênicos no intestino, influenciando sua disponibilidade para reabsorção e sua circulação entero-hepática.

Como funciona a circulação entero-hepática dos estrogênios?

Estrogênios → Fígado → Conjugação → Bile → Intestino → β-glucuronidase → Desconjugação → Reabsorção

Os estrogênios circulantes passam pelo fígado, onde parte deles sofre conjugação. Essa modificação favorece sua eliminação. Os metabólitos conjugados podem chegar ao intestino pela bile.

No intestino, enzimas bacterianas como a β-glucuronidase podem desconjugar glucuronídeos de estrona e estradiol. Uma vez desconjugados, esses compostos podem tornar-se novamente disponíveis para reabsorção, participando da circulação entero-hepática.

Intestino e metabolismo hormonal estão biologicamente conectados.

O Estroboloma como interface entre microbiota e sistema hormonal

Ambiente e alimentação → Microbiota → Estroboloma → β-glucuronidase → Metabolismo dos estrogênios → Circulação entero-hepática

O estudo funcional do Estroboloma desloca a pergunta laboratorial da simples composição microbiana para a atividade metabólica.

Em vez de perguntar somente quais microrganismos estão presentes, passamos a perguntar: qual é a atividade funcional do Estroboloma?

A atividade da β-glucuronidase fecal fornece uma medida funcional dessa etapa do metabolismo microbiano dos estrogênios.

Do Estroboloma ao cérebro: entra em cena o Eixo HPA

O artigo sobre Santa Hildegarda também chama atenção para o papel dos receptores estrogênicos na modulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, conhecido como eixo HPA.

O eixo HPA é um dos principais sistemas por meio dos quais o organismo transforma uma experiência de estresse em resposta fisiológica.

Estressor → Hipotálamo → CRH → Hipófise → ACTH → Adrenal → Cortisol

O cortisol é essencial para a adaptação. Participa da regulação do metabolismo, da disponibilidade de energia, da resposta imunológica e de mecanismos relacionados à emoção e à memória.

O ponto central não é simplesmente produzir cortisol, mas regular adequadamente a resposta neuroendócrina ao estresse.

E essa resposta apresenta uma conexão metabólica especialmente interessante: a via da quinurenina.

Cortisol, Triptofano e Quinurenina: onde o Eixo HPA encontra o metabolismo

O triptofano é um aminoácido essencial frequentemente lembrado por sua relação com a serotonina. Entretanto, a maior parte de seu metabolismo ocorre pela via da quinurenina.

A entrada do triptofano nessa via pode ser catalisada principalmente por duas enzimas: TDO — triptofano 2,3-dioxigenase — e IDO — indoleamina 2,3-dioxigenase.

TDO e IDO criam uma ponte entre resposta ao estresse, inflamação e metabolismo do triptofano.

Estresse → Cortisol → TDO → Quinurenina

Estresse → Eixo HPA → Cortisol → TDO → Triptofano → Quinurenina

Os glicocorticoides participam da regulação da TDO hepática. Assim, a ativação do eixo HPA pode influenciar o direcionamento do metabolismo do triptofano para a via da quinurenina.

Essa ligação torna a via da quinurenina particularmente interessante na investigação das interfaces entre estresse, metabolismo e neurobiologia.

Inflamação → IDO → Quinurenina

Inflamação → Citocinas → IDO → Triptofano → Quinurenina

A via da quinurenina não responde apenas à sinalização neuroendócrina. Ela também está fortemente conectada ao sistema imunológico.

Citocinas inflamatórias podem estimular a IDO, promovendo o metabolismo do triptofano em direção à quinurenina. Entre os mediadores mais estudados nesse contexto está o interferon-gama, importante indutor da atividade de IDO.

Estresse e inflamação convergem na mesma via metabólica

Via neuroendócrina

Via imunoinflamatória

Estresse → Eixo HPA → Cortisol → TDO

Inflamação → Citocinas → IDO

Convergência: Triptofano → Quinurenina

Convergência: Triptofano → Quinurenina

Essa convergência ajuda a explicar por que a avaliação conjunta de Triptofano e Quinurenina acrescenta uma dimensão metabólica ao estudo das interfaces entre resposta ao estresse, sistema imunológico e neurobiologia.

Quinurenina isoladamente não deve ser apresentada como um marcador direto do estresse. A interpretação ganha significado quando a via é analisada em conjunto com o contexto clínico e outros dados biológicos.

A relação Quinurenina/Triptofano — KYN/TRP

Quando Triptofano e Quinurenina são avaliados conjuntamente, é possível calcular a relação KYN/TRP.

Essa relação é utilizada em pesquisa como um índice indireto do direcionamento do metabolismo do triptofano para a via da quinurenina.

Processos inflamatórios podem aumentar esse direcionamento pela ativação de IDO. Paralelamente, a sinalização associada ao estresse e aos glicocorticoides pode influenciar a TDO.

Por isso, essa rota metabólica situa-se na interface entre endocrinologia, imunologia e neurobiologia.

Duas grandes interfaces biodinâmicas

Interface

Processo biológico

Avaliação laboratorial

Intestino ↔ Hormônios

Estroboloma e circulação entero-hepática dos estrogênios

Atividade da β-glucuronidase fecal

Estresse/Inflamação ↔ Metabolismo

Eixo HPA, TDO/IDO e via da quinurenina

Triptofano + Quinurenina + relação KYN/TRP

À primeira vista, Estroboloma e Eixo HPA podem parecer sistemas distantes. Um está relacionado ao intestino; o outro, à resposta neuroendócrina ao estresse. Mas ambos demonstram o mesmo princípio: o organismo funciona por redes de comunicação.

Microbiota influencia metabolismo hormonal; hormônios influenciam cérebro; cérebro regula a resposta endócrina; estresse modifica metabolismo; inflamação interfere na utilização do triptofano.

Do Microcosmo e Macrocosmo às interfaces laboratoriais

Macrocosmo → Microbiota → Estroboloma → β-glucuronidase → Estrogênios → Cérebro → Eixo HPA → Cortisol → TDO/IDO → Triptofano → Quinurenina

Esse fluxo não representa uma cadeia causal única e obrigatória. Ele organiza, de forma didática, sistemas que mantêm relações bidirecionais e dependentes do contexto biológico.

É um circuito de interfaces — não uma sequência isolada.

Hildegarda antecipou o Estroboloma e a via da Quinurenina?

Não. Seria cientificamente incorreto fazer essa afirmação. Santa Hildegarda viveu oito séculos antes da descoberta dessas vias metabólicas.

O que torna sua medicina relevante para essa discussão é outra questão: sua visão considerava que ambiente, individualidade e estado interno do organismo interagiam na construção da saúde e da doença.

O artigo publicado na Frontiers in Neuroscience identificou paralelos entre essa visão e conceitos modernos de endocrinologia, diferenças sexuais, epigenética e interação organismo-ambiente.

Hoje temos ferramentas que permitem investigar partes dessas interfaces biologicamente.

Hildegarda Balance: conceitos integrativos encontram biomarcadores

Na proposta Hildegarda Balance, o objetivo não é substituir a avaliação clínica por um resultado laboratorial. É acrescentar informação objetiva às interfaces biológicas que conectam diferentes sistemas.

β-glucuronidase fecal: atividade funcional do Estroboloma.Triptofano + Quinurenina: avaliação da via metabólica do triptofano.

Assim, a avaliação laboratorial deixa de olhar apenas para concentrações isoladas e começa a observar relações funcionais entre sistemas.

Medir função, não apenas presença

No intestino, não basta necessariamente perguntar quais bactérias estão presentes. Também queremos compreender o que essa microbiota está fazendo.

A atividade da β-glucuronidase fecal mede funcionalmente o Estroboloma relacionado à desconjugação dos estrogênios. Da mesma maneira, no metabolismo do triptofano, a avaliação conjunta de Triptofano e Quinurenina permite observar o direcionamento dessa via metabólica.

A proposta desloca o olhar de marcadores isolados para vias metabólicas, de órgãos isolados para interfaces e de presença microbiana para função.

A ciência começa a enxergar sistemas

O trabalho sobre Santa Hildegarda e medicina moderna propõe que os estrogênios e seus receptores constituem um exemplo de interface molecular entre o meio interno e fatores ambientais.

Quando acrescentamos o conhecimento contemporâneo sobre Estroboloma e via da quinurenina, essa visão torna-se ainda mais ampla:

Ambiente ↔ Intestino ↔ Hormônios ↔ Cérebro ↔ Estresse ↔ Imunidade ↔ Metabolismo

Essa é uma ponte relevante entre uma medicina integrativa historicamente orientada e a medicina laboratorial contemporânea. Não porque a ciência esteja simplesmente confirmando conceitos medievais, mas porque hoje conseguimos mensurar mecanismos biológicos que demonstram o quanto o organismo humano é interconectado.

Compreender o indivíduo significa, cada vez mais, compreender como seus sistemas se relacionam.

Hildegarda Balance | IntegrativaLab

A proposta da IntegrativaLab é avançar da tradição para a investigação laboratorial das interfaces biológicas, preservando a visão integrativa do indivíduo e acrescentando informações funcionais que possam ampliar sua avaliação.

Conhecimento tradicional e ciência laboratorial podem observar linguagens diferentes de um mesmo organismo. Referências científicas

MELINO, S.; MORMONE, E. On the interplay between the medicine of Hildegard of Bingen and modern medicine: the role of estrogen receptor as an example of biodynamic interface for studying the chronic disease’s complexity. Frontiers in Neuroscience, v. 16, 745138, 2022. PMID: 35712451.

Literatura de revisão sobre Estroboloma e metabolismo microbiano dos estrogênios, incluindo atividade de β-glucuronidase.

Literatura sobre β-glucuronidase bacteriana, desconjugação de estrogênios e circulação entero-hepática.

Literatura sobre a via da quinurenina, TDO/IDO, glicocorticoides e inflamação.

Revisão sobre metabolismo do triptofano, eixo HPA e via da quinurenina.

bottom of page